Ser importante - Im-portar - ser levado pra dentro
Creio que todos nós queremos ser Importantes para alguém...
Eu preciso Trans-bordar - ir além da borda - me juntar - para me repartir
A vida é curta,mas não precisa ser pequena
[Mário Sérgio Cortella - Filósofo brasileiro, doutor em educação.]
“Felicidade
é uma vibração intensa. Um momento em que eu sinto a vida em plenitude
dentro de mim e quero que aquilo se eternize. Felicidade é a capacidade
de você ser inundado por uma alegria imensa, por aquele instante, por
aquela situação. Aliás, felicidade não é um estado contínuo. Felicidade é uma ocorrência eventual.
A felicidade é sempre episódica. Você sentir a vida vibrando; seja num
abraço; seja na realização de uma obra; seja numa situação em que seu
time, por exemplo, vence; seja porque algo que você fez deu certo; seja
porque você ouviu algo que queria ouvir; é claro que aquilo não tem
perenidade.
Aliás, a felicidade, se marcada pela
perenidade, seria impossível. Afinal de contas, nós só temos a noção de
felicidade pela carência. Se eu tivesse a felicidade como algo contínuo,
eu não a perceberia. Nós só sentimos a felicidade porque ela não é
contínua. Isto é, ela não é o que acontece o tempo todo, de todos os
modos.
A idéia de felicidade sozinha… Ela teria
que ter uma questão anterior: Se é possível viver sozinho. E como
felicidade, pelo óbvio, só acontece com alguém que vivo está, e viver é
viver com outros e outras, como não é possível viver sozinho, a
possibilidade da felicidade isolada, solitária, é nenhuma. Para que eu
possa ser feliz sozinho eu teria que ser capaz de viver sozinho. Mesmo
na literatura, como Robson Crusoé, por exemplo, que lida com um homem
que está só, mas ele está só depois de ter vivido com outros. Ele traz
as outras pessoas na sua memória, na sua história, no seu desejo, no seu
horizonte. Não há. Não há história de um ser humano que tenha sido
sozinho da geração até o término. Se assim não há, não há possibilidade
de ser feliz sozinho.
Nos
últimos cinqüenta anos do século vinte nós tivemos mais desenvolvimento
tecnológico do que em toda a história anterior da humanidade. Todos os
49.950 anos anteriores, desde que o homo sapiens era sapiens (sapiens sapiens
a classificação científica) foram menos do que os cinqüenta anos finais
do século vinte. Seria a redenção da humanidade, com uma questão: As
questões centrais permaneceram. Quem sou eu? Pra quê tudo isso? Por que é
que eu não sou feliz apenas quando eu possuo objetos? Por que o mal
existe? Por que é que eu não tenho paz em meio a tanta conivência? Nesta
hora, a religiosidade não só sofreu um revival, como a filosofia passou
a ser de novo interessante. E aí, claro, a filosofia como auto-ajuda, a
filosofia como autoconhecimento, a filosofia como auto-capacidade, a
filosofia como prática sistemática… E, de repente, a gente tem, no final
do século vinte, em vários lugares do mundo, e no Brasil também, casas
para estudar filosofia, procura por cursos de filosofia…
Nós somos o único animal que é mortal. Todos os outros animais são
imortais. Embora todos morram, nós somos o único que, além de morrer,
sabe que vai morrer. Teu cachorro tá dormindo sossegado a essa hora, teu
gato tá tranquilo. Você e eu sabemos que vamos morrer. Desse ponto de
vista não é a morte o que me importa, porque ela é um fato. O que me
importa é: o que eu faço da minha vida enquanto minha morte não
acontece, para que essa vida não seja banal, superficial, fútil,
pequena? Nesta hora eu preciso ser capaz de fazer falta. No dia que eu
me for, e eu me vou, eu quero fazer falta. Fazer falta não significa ser
famoso. Significa ser importante.
Há uma diferença entre ser famoso e importante. Muita gente não é famosa e é absolutamente importante. Im-portar,
quando alguém me leva pra dentro. Importa. Ele me porta pra dentro. Ele
me carrega. Eu quero ser importante. Por isso, pra ser importante, eu
preciso não ter uma vida que seja pequena. E uma vida se torna pequena
quando ela é uma vida que é apoiada só em si mesmo. Fechada em si. Eu
preciso trans-bordar. Ir além da minha borda. Eu preciso me
comunicar. Preciso me juntar. Preciso me repartir. Nesta hora, minha
vida que, sem dúvida ela é curta, eu desejo que ela não seja pequena.”
Mario Sergio Cortella
http://www.livredesi.com/mario-sergio-cortella-eu-maior/

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