Nalva Araújo


Chamada Urgente
 
– Alô...
– Quem fala?
– Sou eu.
– Ahhh, então é assim que te anuncias. Ora, ora, ora... Se em tua carta tu me consultas para saber quem és, como te atreves a me atender e te apresentar de forma tão decidida?
– Quem é o senhor, afinal?
– Apolo, para quem tu escreveste, e estou ligando do Monte Parnaso, diretamente aqui da Grécia.
– Não acredito! Tão rápido assim? Eu mandei pelo correio ontem!
– Ocorre que teu caso me pareceu de extrema urgência e então resolvi abrir uma exceção. Como é do teu conhecimento, levo meu ofício muito a sério e, entre minhas aptidões profissionais, coube-me a difícil tarefa de iniciar os jovens na vida adulta.
– Mas, pelo que me disseram, os oráculos só respondem na forma de um enigma...
– O enigma és tu e colocar mais palavras de adivinhação na tua cabeça é coisa do diabo, com quem não quero misturar os papéis, sob ameaça de comprometer o meu reinado.
– É claro, senhor. E então já sabe qual é a profissão que eu devo seguir?
– Com dezoito anos os jovens daqui já sabem o norte do seu destino e tu não te decidiste ainda entre Humanas e Exatas.
– Conforme escrevi, sou bom na soma e na subtração, mas sou chegado em analisar a vida também. Além do mais, preciso trabalhar e ser técnico em alguma coisa me parece uma boa. Hotelaria, Moda e Estilo, Artes Gráficas, Eletrônica, Nutrição, tenho os sentidos muito aguçados.
– Isto serve para tudo, o que é uma vantagem, porque o universo com as suas vibrações astrais abre-se inteiramente para ti. Por que não fazes Astrologia?
– Não acredito nisso, sou um cara muito racional.
– Por isso, o interesse por Ciência da Computação, Análise de Sistemas, Engenharia e Administração?
– E por Astronomia também, tenho facilidade para mexer com símbolos, cálculos e enxergo muito bem.
– Já pensaste em Oftalmologia, que exige uma sensibilidade capaz de imaginar como os outros veem o Cosmos?
– Gostei de Cosmos, adoro palavras, mas não sei não...
– As palavras são a matéria-prima da existência. Tu tens chance em Direito, Psicologia, Letras, Ciências Políticas e Marketing também, eu faço questão de destacar.
– Marketing até que faz a minha cabeça, é uma carreira de sucesso.
– Ora, ora, ora, não sejas carreirista, escolher uma profissão é muito mais. Afinal, responde-me uma pergunta: qual é o teu jeito de ser?
– O quê?
– Qual é a tua, meu?
– Gosto de Jornalismo, de Música e de Relações Públicas. Tenho boa redação, espírito curioso e sou fissurado em eventos culturais. Mas de verdade mesmo, eu queria ser...
– O quê? Vamos, diz...
– Deixa pra lá!
– Com tantas dúvidas na tua cabeça, a Filosofia me parece um território promissor.
– O senhor está parecendo o meu pai querendo que eu entre no seu labirinto, que é para onde vocês aí mandam quem não anda na linha. Ele quer que eu entre na Carreira Militar e fique de frente com o Minotauro.
– Labirinto, isto. Labirinto me parece o lugar exato para tu te achares nos caminhos e descaminhos da decifração.
– Ou me devorar.
– Isto, quem sabe a autodevoração, já que antropofagia em qualquer sentido me parece ao menos um destino heroico. Vai, aceita o desafio e entra em ti.
– Por favor, acho que estou ficando mais confuso. Não dá para o senhor me tratar por você?
– Ahhh, vai-te catar, meu.
– Ultimamente, com essa pressão do vestibular, não faço outra coisa.
– Pois eu vou te propor uma viagem e vamos a ver se tu te ancoras num porto seguro.
– Manda, então.
– Tem uma arca aí onde estás?
– O quê?
– Um baú, garoto.
– Tem, isso tem.
– Entra nele então.
– Um momento..., está aqui no quarto da minha mãe, dá um tempo..., só mais um instante..., pronto, entrei.
– Concentra-te. Imagina que estás de costas para um espelho e procura me descrever quem és tu por trás.
– Está muito calor aqui e eu estou vendo estrelas, ou parecem tochas de fogo no ar... Isto confirma o meu desejo, que é muito mais forte do que o mercado de trabalho.
– E podes vislumbrar algum caminho profissional?
– Eu não tive coragem de dizer, mas o que eu quero mesmo é ser bombeiro.
– Que bombeiro coisa nenhuma. Está bem que teu elemento é fogo, mas tu estás apenas querendo ser original.
– Eu...?
– Pois é agora que eu vou vaticinar o teu destino e te dizer o que serás, de fato, no futuro...
– Me diz então... Alô, alô, alô.... Seu Apolo, por favor, complete o oráculo. Alô..., alô..., o senhor ainda está aí?
– Tu, tuuu, tuuuuuuu. tuuuuuuuuuuu..


Jorge Miguel Marinho, é professor universitário de literatura, roteirista, ator, autor de vários livros de ensaios e ficção, entre eles Te dou a lua amanhã, prêmio Jabuti; Na curva das emoções, prêmio APCA; e Lis no peito – um livro que pede perdão, prêmio Jabuti.

Extraído no site da Vunesp



Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo



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